Você já se pegou comendo uma grande quantidade de comida, sem perceber, como se estivesse ligado no piloto automático? Talvez devorando uma caixa de chocolates… um pote de sorvete… mesmo sem estar com fome? No momento seguinte, quando a comida acaba, você se dá conta do tanto que comeu e, junto com o desconforto, vem aquele sentimento de culpa por já ter prometido para si mesmo que não perderia o controle de novo. Se isso acontece com você com frequência, pode ser que você esteja sofrendo com compulsão alimentar.

A compulsão alimentar afeta milhões de brasileiros e não, não é apenas uma questão de “força de vontade” – é um desafio complexo que envolve nossas emoções mais profundas.

Muitas pessoas que sofrem com compulsão alimentar passam por esse desafio sozinhas, pois a vergonha e o silêncio costumam ser as companhias desse comportamento alimentar, de modo que até mesmo os pesquisadores encontram dificuldade para acessá-las. Por esta razão é difícil precisar estatisticamente o tamanho desta população.

Mesmo sendo um desafio, é importante que você saiba que é uma condição que possui solução e suporte profissional para ajudá-lo a melhorar a sua relação com a comida

O que é compulsão alimentar?

Compulsão alimentar é um comportamento caracterizado por episódios em que a pessoa consome uma grande quantidade de comida, geralmente de forma rápida, sem controle e, devido ao sentimento de vergonha, muitas vezes, prefere comer escondido.

De acordo com Christopher Fairburn (2024), pesquisador considerado uma das maiores autoridades em transtornos alimentares na atualidade, a grande maioria das pessoas com compulsões alimentares não tem um transtorno alimentar. Neste caso, estamos falando de pessoas que relatam episódios compulsivos ocasionais que não causam danos físicos e que não comprometem a sua qualidade de vida. Podemos pensar em comer mais que o habitual, durante uma festa de aniversário que você se sente socialmente desconfortável, na feijoada do fim de semana depois de um período com muitas restrições alimentares, ou quem sabe, devorando muitos snacks num momento de tédio, enquanto maratona uma série do Netflix.

Por outro lado, se esses episódios compulsivos deixam de ser ocasionais, são usados frequentemente como estratégia de enfrentamento, afetam a saúde física e qualidade de vida, recomenda-se uma avaliação profissional mais aprofundada, pois pode se tratar de um transtorno alimentar. Os transtornos alimentares mais comumente observados em adolescente e adultos são: anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar.

Quando a compulsão alimentar se configura dentro do quadro de transtorno alimentar, esses episódios, muitas vezes, são seguidos por sentimentos de culpa, vergonha e arrependimento associados a uma percepção de falta de controle. Diferente de uma simples fome ou de um desejo ocasional por um alimento específico, a compulsão está relacionada a fatores físicos, sociais e psicológicos.

Muitas vezes, o gatilho emocional para a compulsão alimentar inclui estresse, ansiedade, tristeza, solidão, desesperança, tédio, raiva e o comportamento ocorre na tentativa de reprimir tais emoções. A comida acaba se tornando uma forma de “anestesia” para sentimentos difíceis de lidar. O problema é que esse alívio é temporário e, logo depois do episódio, algumas pessoas relatam que os sentimentos se transformam em culpa, nojo de si mesmas, e frustração pela perda de autocontrole. Com o tempo, esse ciclo se repete e torna-se um padrão de comportamento disfuncional.

Sempre fui assim, não tem como mudar…

Uma das maiores objeções que as pessoas têm ao procurar ajuda é acreditar que “sempre foram assim”, sempre gostaram de comer bastante e que isso faz parte da sua personalidade. Mas a verdade é que nós não nascemos com uma relação disfuncional com a comida. Essa relação é aprendida e reforçada ao longo do tempo.

Se você sente que a comida é um refúgio, pode ser que tenha aprendido a lidar com suas emoções dessa forma desde a infância ou adolescência. Talvez tenha ouvido frases como “se você se comportar, ganha um doce” ou “coma tudo no prato para ficar forte” ou “coma tudo para ganhar a sobremesa”. Ou, ainda, pode ter passado por momentos difíceis e encontrado na comida uma forma de conforto ou prazer.

Mas a boa notícia é que, assim como aprendemos esses padrões, também podemos desaprendê-los e criar uma nova forma de nos relacionarmos com a comida.

Eu só preciso de força de vontade…

Outro grande mito é que basta ter disciplina e força de vontade para parar com a compulsão alimentar. Se fosse assim, ninguém teria dificuldade para mudar esse comportamento, não é mesmo?

A verdade é que a compulsão alimentar tem um fundo emocional e não pode ser resolvida apenas com regras alimentares ou restrição de comida. Aliás, estudos apontam que dietas muito restritivas podem piorar ainda mais o quadro, porque aumentam a sensação de privação e fazem com que a vontade de comer certos alimentos se torne ainda maior.

A compulsão não acontece porque você “não tem controle”. Ela acontece porque seu cérebro está tentando encontrar uma forma rápida de aliviar o desconforto emocional. A solução está em entender e tratar as causas desse comportamento, e é aí que a psicoterapia pode fazer toda a diferença.

Como a Psicoterapia Pode Ajudar?

A psicoterapia é um importante recurso de tratamento, no qual você conta com um profissional que está com você para compreender a sua relação com a comida, o papel do seu comportamento alimentar e ajudá-lo a encontrar formas mais funcionais de enfrentamento. Tudo isso ocorre em um espaço seguro onde você pode se expressar livremente, sem ser julgado ou criticado.

Com o acompanhamento de um(a) psicólogo(a), você pode:

  • Identificar os gatilhos emocionais que levam aos episódios de compulsão;
  • Desenvolver estratégias saudáveis para lidar com emoções difíceis;
  • Melhorar sua relação com a comida, sem culpa ou restrições extremas;
  • Trabalhar sua autoestima e autocompaixão, para sair do ciclo de culpa e frustração;
  • Aprender técnicas de regulação emocional para lidar melhor com o estresse e a ansiedade.

A psicoterapia não é um caminho rápido, mas é um caminho eficaz e duradouro. Ao invés de apenas “se controlar”, você aprende a se entender, e isso faz toda a diferença.

“Mas e se não funcionar para mim?”

Essa é uma dúvida comum para quem está pensando em buscar ajuda e sente o receio de “perder tempo” ou “gastar dinheiro e não ver resultado”. A verdade é que a psicoterapia não é uma solução mágica, ou uma injeção de dose única que você toma e espera o tempo necessário para o efeito acontecer. Assim como o transtorno alimentar não se desenvolveu em um dia, a psicoterapia é um processo colaborativo, que traz resultados reais, especialmente quando associado ao acompanhamento de nutricionista, médico e educador físico.

Se você sente que já tentou de tudo e nada funcionou, talvez seja porque você ainda não trabalhou as verdadeiras causas da compulsão alimentar. A psicoterapia é um investimento em você e no seu bem-estar. E o melhor de tudo: os benefícios vão muito além da relação com a comida. Eles se refletem na sua autoestima, na sua qualidade de vida e na sua saúde emocional como um todo.

Quer dar o primeiro passo?

Se você se identificou com o que falamos aqui, saiba que buscar ajuda é um ato de coragem e autocuidado. A compulsão alimentar é um desafio complexo e não define quem você é. Você não precisa passar por isso sozinho.

De acordo com um famoso provérbio chinês: “Uma jornada de milhares de quilômetros começa com um simples passo”.

Que tal marcar uma primeira sessão para entender melhor como a terapia pode te ajudar?